Manifesto pelas Árvores

Imagine um mundo sem árvores e onde o concreto reina.

Agora imagine um mundo cheio de belos bosques e jardins, com construções belas e sustentáveis.

Para onde estamos indo?

Quem escolhemos ser e o que deixaremos para nossos filhos?

Nossas escolhas diárias determinam cada amanhã.

Sejamos conscientes de nossa responsabilidade.

Por Amor.

Ilana Lewinsohn

Ouvimos um chamado. A partir dele, lançamos outro. 

Quem chamou? As ÁRVORES, os seres todos que habitam as matas desta região, conhecida como Costa do Descobrimento. Quem ouviu? Muitos corações ouviram, e outros estão ouvindo as ondas desse grito que veio das matas, e segue ecoando.  

E que outro chamado lançamos?  Aquele pela AÇÃO CONSCIENTE, de todos os setores da sociedade de que somos parte (afinal, ninguém é sozinho, somos todos parte, teia, absolutamente interdependentes uns dos outros, e nossas ações individuais afetam o todo). Chamamos por maior participação de todos, para o DIÁLOGO TRANSPARENTE e busca conjunta por soluções. Chamamos por posturas que considerem a integridade natural desta região, em consonância com o desenvolvimento necessariamente SUSTENTÁVEL, assim como tem sido amplamente discutido em todo o mundo, os caminhos para o equilíbrio sócio-ambiental e econômico. 

Percebemos que houve um novo redescobrimento desta região. O êxodo urbano, talvez provocado pela pandemia que vivemos, aqueceu o setor imobiliário na Costa do Descobrimento, e vemos um acelerado processo de ocupação de áreas por aqui. Sabemos que é um processo irreversível e que toda a região tende ao forte crescimento urbano. Nossa busca é por estratégias inteligentes de desenvolvimento, alinhadas com as orientações que cuidem das belezas locais, da saúde ambiental, das populações tradicionais. Estratégias que valorizem o que de mais rico há na região, incrementando a economia de forma consciente – com turismo ambiental, turismo educacional, e não um turismo predatório e minador daquilo que é mais precioso a esta belíssima região. 

O que propomos é perfeitamente possível. Requer boa vontade e um olhar visionário, projetando no agora o futuro, integrando aquilo que já não pode estar de fora. É necessário integrar os olhares das secretarias de meio ambiente, desenvolvimento urbano, educação e cultura, turismo. E preciso atentar e cuidar para que nossa arquitetura e paisagem urbana não se transformem em algo feio, sem charme, sem poesia… Algo como uma das tantas cidades litorâneas que se tornaram praia e concreto, que funcionam apenas como alojamentos feiosos para crescentes aglomerações nas praias. E preciso cuidar da beleza. E preciso zelar pelo belo. 

Nosso município, Porto Seguro, sul da Bahia, é conhecido como preservado, como parte de uma região de belezas naturais extraordinárias, com praias belíssimas, águas limpas, florestas, bom clima. Por sua beleza, Porto Seguro e região têm sido atrativos a pessoas do mundo inteiro – razão pela qual, inclusive, temos um aeroporto internacional, que será ampliado em breve. E tudo isto está seriamente ameaçado pela pressão imobiliária inconsciente, pelo crescimento desordenado que desconsidera o olhar ambiental e parece não perceber que descuidar da natureza da região é como matar a galinha dos ovos de ouro. 

NOS ÚLTIMOS ANOS, PORTO SEGURO ESTEVE ENTRE OS PRIMEIROS NA LISTA QUE ELEGE AS CIDADES BRASILEIRAS CAMPEÃS EM DESMATAMENTO. Triste título, não merece orgulho, mas vergonha, por não cuidarmos do que é mais precioso para a região, que assegura o turismo abundante.

 A beleza cênica das praias, assim como a qualidade das águas das nascentes, dos rios, das praias, depende diretamente da existência de área verdes preservadas. O bom clima também depende dessa mesma condição, como é fácil perceber na diferença de sensação térmica ao caminharmos pelo centro de Porto Seguro ou Eunápolis  – onde as árvores são raras e há concreto por toda parte – e por Arraial d´Ajuda; Caraíva; Trancoso; Cabrália; Santo André, onde as árvores ainda estão abundantes.  E quando dizemos ´ainda´, não desejamos profetizar que seja diferente no futuro, mas, ao contrário, queremos soar o alarme para que encontremos estratégias eficientes que modifiquem o cenário e evitem que erros conhecidos sejam repetidos. Estamos convocando inteligência, ação consciente, boa vontade, empatia, coerência e, claro, amor!

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Então, por quê? Por que as árvores são importantes? Por que uma árvore importa?  

Em primeiro lugar, por seu valor intrínseco! Como bem disse Arne Naess, um dos criadores do conceito da Cultura Regenerativa, ´TODO SER TEM VALOR INTRÍNSECO, INDEPENDENTEMENTE DA SUA UTILIDADE PARA O SER HUMANO.´

Mas podemos apresentar algumas razões que também qualificam as árvores vivas como  essenciais, por sua utilidade dentro do sistema ecológico do qual somos parte.


VAMOS A ELAS, NOSSAS IRMÃS ÁRVORES:

• Árvores são seres do reino vegetal, que cobre a superfície da Terra, conferindo-lhe extrema beleza. A beleza cênica traz bem estar.  Existe inclusive uma terapia chamada Banho de Floresta ou Shinrin-Yoku, onde o interagente passeia pela floresta, contempla sua beleza e respira o ar puro – que comprovadamente traz benefícios para a saúde física, mental e emocional, combatendo inclusive a depressão e a ansiedade, males mundiais.  Depressão e doenças mentais tem crescido, assim como os índices de suicídio – e o desmatamento, mundo afora. 

Árvores são morada de inúmeros animais. São suas casas, seus lares, seu pouso.  Muitos animais dependem diretamente da existência das árvores para sobreviver. Sem elas, eles também não existem.

Árvores fornecem alimento, com sua casca, folhas, flores, frutos, sementes. Muitos animais – incluindo a gente – se alimentam do que as árvores oferecem, seguidamente, dentro de seus ciclos de vida perfeitamente integrados com o correr das estações do ano. 

Árvores doam sua sombra. Regulam a temperatura do solo e também a do ar, sob sua copa. Quem nunca se abrigou na sombra de uma bela árvore e pode sentir a generosidade de sua presença acolhedora? 

Árvores compõem, com suas raízes, uma rede que estrutura e protege o solo, evitando erosão por chuva ou vento, e impedindo que morros venham abaixo quando chegam as chuvas fortes. 

Árvores, como parte do Reino Vegetal, são purificadoras do ar. Elas respiram oxigênio assim como nós – o que nos aproxima mais, como seres que habitam o mesmo planeta e se nutrem de uma mesma atmosfera –  mas em seu processo fisiológico de crescimento, através da fotossíntese, elas consomem gás carbônico  e liberam  oxigênio… Este mesmo, que andou faltando em algumas cidades e sem o qual a gente não sobrevive mais que uns poucos minutos!

• As árvores transpiram, assim como nós, através de suas folhas. Esse processo fisiológico participa da regulação da umidade do ar e do ciclo das águas, das chuvas, dos rios. Quanto mais calor, mais transpiram e devolvem água a atmosfera, compondo as nuvens, que se derramam a nutrir os rios e os lençóis subterrâneos. De onde vem a água que as árvores transpiram? Do solo, captada das chuvas e regas.  Esse ciclo hídrico, aqui descrito de modo extremamente simplificado, é rico, complexo e depende integralmente da existência das árvores para acontecer. A Natureza é sábia, afinal!

As árvores nativas fazem parte do bioma conhecido como MATA ATLÂNTICA.  QUEM É ELA?

Os nativos antigos não conheciam a expressão Mata Atlântica, cunhada pelos portugueses e que carrega em si um olhar utilitarista e exploratório. Os nativos conheciam ´Nhãru´, essa grande e imponente floresta que se estendia por toda a costa do que hoje conhecemos por Brasil, antes Pindorama, com quem se relacionavam de uma outra forma, bastante distinta da que foi implementada a partir do ano de 1500. A maneira como temos nos relacionado com este e outros biomas brasileiros carrega a herança de uma aproximação unicamente exploratória, levamos conosco a visão de mundo que separa  a natureza e nós. Trazemos o conceito de que o desenvolvimento  (vejam só: DES – envolvimento) necessita de destruição da natureza, como se ela fosse inimiga do progresso. Hoje sabemos (tal como nos ensinam muitos povos originários, com suas cosmovisões de mundo) que é justamente o oposto.  

A Fundação SOS Mata Atlântica e o INPE desenvolveram o Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica, que mostra as mudanças que vêm ocorrendo neste que é um dos Biomas mais ricos em biodiversidade e mais ameaçado do planeta. Revelam a terrível e alarmante situação da Mata Atlântica em 2815 cidades de 10 dos 17 Estados abrangidos por ela. Originalmente, ocupava, nos 17 Estados onde vivia, 1,36 milhão de Km2, dos quais 93% foram devastados.  Esta devastação começou aqui, em Porto Seguro, 1521 anos atrás. Até onde já se estudou da Mata Atlântica, são conhecidas mais de 20 mil espécies de plantas, das quais 8 mil são endêmicas (só ocorrem naquela região), e apresenta 383 das 633 espécies animais ameaçadas de extinção no Brasil. 

Além de tudo isto, o sul da Bahia é especialmente considerado um HOT SPOT, ou seja, é uma área natural do planeta Terra, com pelo menos 1500 espécies que só ocorrem ali; que possui grande diversidade ecológica, com espécies com risco de extinção, e que já perdeu mais de ¾ de sua vegetação original.  

Isto significa que é de suma importância preservar o que ainda resta de áreas nativas aqui. E indispensável e cada vez mais urgente a criação de mais Unidades de Conservação na região. E preciso que as que já existem sejam zeladas. E preciso que a lei seja respeitada, que as Areas de Preservação Permanente sejam respeitadas, que as Reservas Legais sejam cumpridas e respeitadas. 

SUSTENTABILIDADE E CULTURA REGENERATIVA

Muito tem sido dito, há décadas, sobre sustentabilidade. Antes tida como conversa de ecochato, hoje essa abordagem é o eixo central dos diálogos internacionais, como pano de fundo essencial, como base para todas as outras questões, porque não se trata ´somente` de árvores ou de animais ou de águas ou da qualidade do ar ou do uso dos solos… Trata-se de tudo isso junto, e da nossa possibilidade de sobrevivência neste planeta, casa, mãe, que nos deu TUDO, e a quem temos tratado de forma desrespeitosa, ingrata, não amorosa, usando indecorosamente seus elementos – que tratamos como RECURSOS, porque entendemos que tudo está para nos servir, ignorando as relações naturais e de interdependência que existem entre todos os seres, todos os reinos da natureza: vegetal, animal, mineral, humano, algas, fungos, microorganismos.

 Já sabemos que SÓ SUSTENTABILIDADE NÃO BASTA, PRECISAMOS REGENERAR. Significa que a sustentabilidade já passou a ser algo basal, essencialmente indispensável. Será que compreendemos que não existe planeta B? Será que estamos, de fato, percebendo que nossa sobrevivência neste planeta depende de mudarmos de postura em relação ao que chamamos de ´recursos naturais´? Estamos cientes de que precisamos de ar pra respirar, água pra beber, terra para andar e plantar, e que estamos intimamente relacionados com toda a teia de animais, plantas, montanhas, rios, seres e belezas que compõem este planeta? Estamos nos lembrando de que somos somente mais uma espécie habitando este planeta, junto de outras tantas, que inclusive vieram antes de nós?  Somos interdependentes. E um fato. Ao quebrarmos essa frágil teia, agindo como se fossemos auto-suficientes e sozinhos no planeta, estamos plantando tristeza, doença, e cultivando nosso próprio fim enquanto espécie. 

 Como podemos fazer nossa parte e contribuir para o bem comum e o Bem Viver? 

Precisamos curar nossas relações.

Não estamos sozinhos, nessa fala. E é preciso que mais e mais corações e mãos se unam a ela. Você conhece os ODS da ONU? Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, propostos pela Organização das Nações Unidas, em 2015? Compõem uma agenda mundial adotada naquele ano, com 17 objetivos e 169 metas a serem atingidas até 2030.  Vamos somente citá-los, para contextualizar esta prosa e mostrar o quanto tudo está interligado, e o quanto não há mais tempo para olhar somente para um aspecto, desconsiderando os demais. TUDO ESTÁ INTEGRADO, precisamos desenvolver o pensamento integrado também. Desenvolvimento imobiliário na nossa região? Ótimo, mas como isso está sendo feito? E como pode e deve ser feito? 

OBJETIVOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL – ONU, 

  1. ERRADICAÇÃO DA POBREZA
  2. FOME ZERO E AGRICULTURA SUSTENTÁVEL
  3. SAÚDE E BEM ESTAR
  4. EDUCAÇÃO DE QUALIDADE
  5. IGUALDADE DE GÊNERO
  6. ÁGUA POTÁVEL E SANEAMENTO
  7. ENERGIA LIMPA E ACESSÍVEL
  8. TRABALHO DECENTE E CRESCIMENTO ECONÔMICO
  9. INDÚSTRIA, INOVAÇÃO E INFRAESTRUTURA
  10. REDUÇÃO DAS DESIGUALDADES
  11. CIDADES E COMUNIDADES SUSTENTÁVEIS
  12. CONSUMO E PRODUÇÃO RESPONSÁVEIS
  13. AÇÃO CONTRA A MUDANÇA GLOBAL DO CLIMA
  14. VIDA NA ÁGUA
  15. VIDA TERRESTRE
  16. PAZ, JUSTIÇA E INSTITUIÇÕES EFICAZES
  17. PARCERIAS E MEIOS DE IMPLEMENTAÇÃO

Esses objetivos, adotados mundialmente, dizem respeito a nós. A todos nós. Precisamos mudar as escolhas, a forma de realizar ações, para de fato construirmos o caminho para esse novo mundo, novo modo, onde o bem estar de todos seja verdadeiramente semeado, cuidado. 

Para isso, é preciso:

  1. ABERTURA PARA O DIÁLOGO; 
  2. TRANSPARENCIA NAS AÇÕES POLÍTICAS;
  3. BOA COMUNICAÇÃO DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA COM A POPULAÇÃO, explicitando publicamente TODAS as ações e intervenções relacionadas a supressão de árvores, interferência ambiental ou mudança na paisagem;
  4. REVISÃO E ATUALIZAÇÃO DA LEGISLAÇÃO AMBIENTAL MUNICIPAL;
  5. VEREADORES MAIS COMPROMETIDOS COM O MEIO AMBIENTE;
  6. MAIOR FISCALIZAÇÃO AMBIENTAL;
  7. CAPACITAÇÃO ADEQUADA DE FISCAIS AMBIENTAIS E DA POLÍCIA AMBIENTAL;
  8. EDUCAÇÃO OBRIGATÓRIA, COM CRIAÇÃO DE CARTILHA, PARA AS IMOBILIÁRIAS E AGENTES IMOBILIÁRIOS, relacionada à importância do cuidado ambiental, em todas as suas frentes, e especialmente no que diz respeito à preservação/ supressão de árvores;
  9. PROGRAMA DE ATENÇÃO E CUIDADO COM A ARQUITETURA REGIONAL, respeitando o aspecto cultural local;
  10. INVESTIMENTO EM PROGRAMA ESPECIAL NA EDUCAÇÃO, priorizando a questão ambiental e a preservação desta região;
  11. IMPLEMENTAÇÃO DE UNIDADES DE CONSERVAÇÃO E CORREDORES ECOLÓGICOS;
  12. PRESERVAR O QUE EXISTE, REFLORESTAR ÁREAS DEVASTADAS; 
  13. CANAIS PARA DENÚNCIA QUE FUNCIONEM VERDADEIRAMENTE;
  14. PUNIÇÃO REAL, CUMPRIMENTO DA LEI, PARA OS INFRATORES.  

Deixamos este manifesto como registro de propósito e de ação, enquanto representantes da sociedade civil organizada, na certeza de estarmos sendo ouvidos com a devida atenção que tema tão importante implica. 

Chamado lançado, em nome de todas as árvores e matas, especialmente as desta região da Costa do Descobrimento, sempre habitada pelo povo pataxó e que mais e mais vai se tornando morada de pessoas de toda parte do planeta. Cuidemos, pois, desta área que nos cabe guardianar, junto de seu povo  nativo. 

“Para cuidar do outro, não é sequer preciso haver duas pessoas. Se eu planto uma árvore, alguém vai aproveitar sua sombra e comer seu fruto .”  Ubiraci Pataxó, de Santa Cruz Cabrália.


Aqui assinamos, em compromisso:

. Associação Sócio Ambiental Verdejar d’Ajuda

. Instituto Canto da Floresta, Arraial d’Ajuda 

. Jardim Ciranda Escola, Arraial d’Ajuda


Somos frutos do ontem, dos que vieram antes de nós. 

Somos sementes do amanhã, e 

Somos melhores do que temos sido. 

Precisamos nos lembrar de  que nossa maior força

É o AMOR.

Trabalhemos juntos.  

Ilana Lewinsohn
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Um pensamento em “Manifesto pelas Árvores”